“Teste” com plataforma do BRT saiu por R$ 1,8 milhão
10/05/2013
Diretora adjunta do Ibape-MG, Polyanna Veras, foi entrevistada pelo Jornal Hoje em Dia sobre a demolição da plataforma do BRT na Avenida Cristiano Machado.
Matéria Patrícia Santos Dumont e Raquel Ramos – Hoje em Dia
O custo estimado da plataforma do BRT
(Transporte Rápido por Ônibus) demolida na avenida Cristiano Machado, na
quinta-feira (9), supera R$ 1,8 milhão. O valor corresponde ao montante
necessário para fabricar, transportar, montar e implantar cada uma das 12
estações previstas ao longo da via, conforme projeto apresentado à Prefeitura
de Belo Horizonte.
O prefeito Marcio Lacerda garantiu, na sexta
(10), que não haverá ônus para o município. Em entrevista ao radialista Eduardo
Costa, afirmou que nem um centavo sairá do “imposto nosso de cada dia”.
A destruição do módulo foi mostrada com
exclusividade pelo Hoje em Dia. Na sexta, a construtora responsável pela
execução da obra jogou na própria conta o prejuízo com a intervenção. Mas a
justificativa de que pôs no chão apenas um “protótipo” causa estranheza em
especialistas.
“Quem construiria duas casas, sem nenhum custo adicional, para que o
proprietário avalie qual é a melhor?”, questiona Pollyanna Veras, diretora do
Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape-MG).
Especialista em patologia em edificações a arquiteta não descarta a possibilidade de que o valor do suposto protótipo já
estivesse embutido no contrato entre a empresa e a prefeitura. “Mas a
confirmação depende da leitura desse documento”, diz.
O discurso de que a plataforma serviria
somente como “modelo” não bate com a explicação dada por operários que, com uma
retroescavadeira, a demoliram. Na sexta, eles voltaram a afirmar ao Hoje em Dia
que erros de engenharia condenaram a estrutura: a altura seria inferior à
ideal, deixando as portas dos ônibus desniveladas em relação ao piso da
estação. Uma passarela próxima também poderá ser demolida, segundo os
trabalhadores.
O presidente do Instituto Mineiro de
Engenharia Civil (Imec), Marcelo Fernandes, chama atenção para a forma como as
obras foram conduzidas e afirma que “testes” não são praxe.
“Não existe a condição de se fazer um
‘experimento’ com a construção de um empreendimento. Em qualquer obra, a
primeira coisa a se fazer é avaliar o projeto e aprová-lo para só então partir
para a execução”, explica.
Mesmo se a hipótese do “protótipo” for
procedente, não ficará livre de críticas. “Qualquer construção por
tentativa gera desperdício de dinheiro, tempo e material”, diz a arquiteta
Pollyanna Veras.
Obra começa um ano antes
de o projeto ficar pronto*
Antes mesmo de ter o planejamento concluído, as obras do BRT da avenida
Cristiano Machado já eram realizadas. O projeto executivo do empreendimento foi
assinado em 1º de julho de 2010 e concluído em 6 de agosto de 2012 – após
quatro pedidos de prorrogação do prazo, feitos pela empreiteira.
Os adiamentos não inviabilizaram a assinatura da ordem para a execução dos
trabalhos. Ela foi dada em 26 de julho de 2011, ou seja, um ano antes de todo o
projeto ser apresentado à PBH.
Já a instalação das plataformas de embarque começou seis meses depois, em 13 de
janeiro de 2012.
Na avaliação do presidente do Instituto Mineiro de Engenharia Civil (Imec),
Marcelo Fernandes, o descumprimento de uma “sequência lógica” para realização
da obra poderia explicar a sequência de falhas no produto final.
“O projeto é realizado e aprovado justamente
para orçar e estudar as possibilidades de erro durante a execução da obra. Se
há uma inversão das coisas, ou seja, se a licitação e a escolha da empresa para
realizar as intervenções é feita antes mesmo de um estudo detalhado ser
finalizado, certamente a chance de problemas será muito maior”, afirma.
Explicação
O Ministério Público Estadual irá encaminhar um ofício para que a Prefeitura de
Belo Horizonte explique o que motivou a demolição da estrutura e se houve erro.
*Com Gabi Santos e Bruno Moreno
