Feito para veículos, viaduto José Alencar tem armadilha fatal para ativistas nas manifestações.

28/06/2013

Feitas só para veículos, estruturas que ligam avenidas Antônio Carlos e Abrahão Caram viraram um risco para ativistas.

Para o vice-presidente do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape/MG), Clémenceau Chiabi, o viaduto foi concebido da maneira correta, sendo usado apenas para o trânsito de veículos. “Como há semáforo para pedestres embaixo do elevado, na Avenida Antônio Carlos, não há justificativa para trânsito de pedestres na parte de cima”, diz o engenheiro. “O viaduto não foi concebido para que suas pistas sejam atravessadas”, acrescenta Chiabi.

Guilherme Paranaiba

Publicação: 28/06/2013 06h0 Atualização: 28/06/2013
09:00


Inaugurado em
dezembro de 2011, o Viaduto José Alencar, que faz a ligação entre as avenidas
Antônio Carlos e Abrahão Caram, na Região da Pampulha, foi projetado para
facilitar o acesso ao Mineirão para veículos que saem do Centro e também para
ligar bairros como Jaraguá, Dona Clara e Liberdade, todos na Pampulha, ao
estádio de maneira mais rápida, eliminando um cruzamento. A estrutura também
foi pensada para se adequar ao transporte rápido por ônibus (BRT, da sigla em
inglês), mas nem o mais pessimista dos engenheiros imaginava que um dia
manifestantes tomariam o lugar dos carros e andariam a pé pelo elevado,
correndo o risco de cair, como ocorreu com o jovem Douglas Henrique de Oliveira
Souza, de 21 anos, que não resistiu, e com outras cinco pessoas que ficaram
feridas em acidentes semelhantes.

Para o vice-presidente do Instituto Brasileiro
de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape/MG), Clémenceau Chiabi, o viaduto
foi concebido da maneira correta, sendo usado apenas para o trânsito de
veículos. “Como há semáforo para pedestres embaixo do elevado, na Avenida
Antônio Carlos, não há justificativa para trânsito de pedestres na parte de cima”,
diz o engenheiro. Ele também explica que em outros casos, como no viaduto da
Avenida Raja Gabaglia que passa por cima da BR-356, no Belvedere, Centro-Sul da
capital, pode haver uma passarela, mas sempre com o objetivo de fazer a
travessia de uma avenida que passa embaixo. “O viaduto não foi concebido para
que suas pistas sejam atravessadas”, acrescenta Chiabi. Ainda segundo o
especialista, as características da estrutura, como o vão entre os dois
viadutos, dependem do traçado das avenidas que são conectadas por eles.

O empresário Silas
Brasil, de 36, também estava em cima do Viaduto José Alencar no momento em que
Douglas Henrique caiu sobre a Avenida Antônio Carlos. Segundo Silas, quando
começou o confronto na frente de uma concessionária, com muitas bombas, os
manifestantes pularam de uma parte do viaduto para a outra, com o objetivo de
ver o que estava acontecendo na Antônio Carlos. “Quase todo mundo pulou da
parte segura, que tinha um canteiro, onde basta passar a perna para o outro
lado para conseguir chegar à outra pista. Creio que ele achou que em qualquer
ponto era assim, mas acabou tentando passar em um trecho em que há o vão e as
muretas são bem distantes.”

A PM solicitou intervenção da Prefeitura de BH
para evitar que os manifestantes pulassem de um lado para o outro, mas a tela
instalada não surtiu efeito. Ela não foi colocada acompanhando a linha das
muretas, apenas na cabeceira do viaduto. O Estado de Minas fez contato com a
prefeitura para que se pronunciasse sobre o assunto. Em nota, a administração
limitou-se a afirmar que “a Superintendência de Desenvolvimento da Capital
(Sudecap) utiliza, para projetos dessa natureza, os mais rigorosos critérios de
segurança, coerentes com o uso esperado para essas estruturas”. 

FERIDOS

Em
nota divulgada ontem, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) informou que
Douglas Henrique recebeu atendimento imediato depois que caiu do viaduto, dado
por uma equipe médica de plantão na Pampulha, no Posto Médico Avançado
instalado próximo ao Mineirão. Das outras cinco pessoas que caíram do Viaduto
José de Alencar, uma já teve alta do HPS João XXIII. É um homem de 28 anos que
também sofreu a queda na quarta-feira e teve traumatismo craniano leve. Três
jovens que despencaram da estrutura no sábado, durante a partida entre Japão e
México, continuam internados. L.F.A., de 22, respira por aparelhos, em estado
grave e C.A.C.L., de 17, permanece estável respirando normalmente, ambos no
João XXIII. Já R.C.G., de 22, aguarda uma cirurgia para o punho no Hospital
Risoleta Neves e passa bem.

Outra pessoa que caiu foi o jovem G.M.J., 18, na última segunda-feira. Ele
também está no Risoleta Neves, mas já passou por cirurgia na bacia e faz
fisioterapia. Segundo a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig),
16 pessoas ficaram feridas nas manifestações de quarta-feira, sendo que 15 já
receberam alta e uma delas permanece internada. 

T.M.A., de 24, levou um tiro de bala de borracha no olho e foi transferido para
uma clínica particular, onde foi submetido a cirurgia na tarde de ontem.
Segundo parentes, o rapaz, um advogado, não participava do protesto. Ele
retornava do Mineirão, onde assistiu a Brasil x Uruguai, e já estava perto de
casa quando foi ferido. A vítima corre o risco de perder a visão no olho atingido.
(Com Luiz Ribeiro)

 

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